Charlotte Mason

O ideal de Miss Mason: sua amplitude e seu equilíbrio

Muitos de nós aqui presentes devem ter conhecido Miss Mason pessoalmente; e provavelmente os demais a conheceram tão bem por meio da correspondência e dos vários ramos de seu trabalho que também a consideram uma amiga pessoal. Talvez nunca tenha existido alguém que conquistasse tão rápida e duradouramente a amizade de pessoas que jamais havia visto. Professores que a conheciam havia apenas alguns meses sentiram o vazio deixado por sua perda com uma intensidade singular; o mesmo ocorreu com pais cujo conhecimento dela se limitava à gratidão por seus ensinamentos em Educação no Lar e Pais e Filhos.

Amplitude e equilíbrio são talvez as principais marcas do ensino de Miss Mason, de modo que há muitos pontos de vista a partir dos quais podemos tentar estudá-lo. Certamente, poucos educadores conseguiram formular, ao mesmo tempo, uma teoria e uma filosofia da educação — no sentido mais amplo — e também um método de ensino prático e concreto. Esses são os dois aspectos principais de seu ideal, frequentemente separados, mas que, na realidade, não podem ser separados.

Em primeiro lugar, temos a formação da criança enquanto pessoa: o ensino dos hábitos, o treinamento da vontade e o desenvolvimento gradual do caráter. Fundamentada nisso e em muitas outras coisas, encontra-se a teoria e a prática educacional de Miss Mason em seu sentido mais restrito: como ensinar as crianças durante os anos escolares.

A formação da pessoa é, naturalmente, uma atividade mais silenciosa do que a transmissão de conhecimentos. Podemos organizar exposições dos trabalhos realizados pelas crianças da P.U. School ou ministrar aulas demonstrativas, mas não podemos colocar em exposição a formação do caráter de nossos filhos. Essa parece ser uma das razões para a ideia, estranhamente equivocada, de que Miss Mason se preocupava mais com o conhecimento do que com o caráter. Contudo, essa não é a única razão.

Atualmente, ouvimos falar muito — talvez até demais — sobre liberdade, individualidade, educação dos sentidos, importância dos primeiros hábitos do bebê e assim por diante. Mas nada disso é novidade para os membros da P.N.E.U. Em Educação no Lar, escrito há quase trinta anos, Miss Mason ensinava que, desde os primeiros dias, o bebê deveria aprender o significado de “deve” e “não deve”, e que nunca é cedo demais para ensinar hábitos físicos de regularidade no sono, na alimentação e em outras necessidades.

Em seu folheto As Crianças como Pessoas, lemos que “a liberdade é o direito mais sagrado e inalienável” da criança; que “a opinião pública é uma servidão insuportável, que priva a pessoa de seu direito individual de pensar por si mesma”; e que “uma mente que não pensa e não pensa seus próprios pensamentos é como um braço paralisado ou um olho cego”.

Muito mais poderia ser citado para demonstrar o lugar de destaque que o caráter — o verdadeiro caráter — ocupava no ideal de Miss Mason e como esse ideal permeou admiravelmente o pensamento educacional. De fato, algumas pessoas se apoderaram desta ou daquela parte de seus ensinamentos, sem saber de quem haviam partido, e deixaram que essas ideias as levassem longe demais, perdendo o equilíbrio e o bom senso que caracterizam toda a obra de Miss Mason.

Na verdade, tanto do que Miss Mason ensinou a respeito da criação e da formação das crianças passou a fazer parte do patrimônio comum da parcela pensante da nação que nos esquecemos de quem o devemos. Isso é exatamente o que ela própria teria desejado e aquilo que parece ter buscado.

Mais do que isso, seus ensinamentos se harmonizam tão bem com o pano de fundo de uma vida sensata que, quanto mais presentes estão, menos os percebemos. Qualquer pessoa que tome seu livro Educação no Lar e o leia pela primeira vez fica impressionada com o bom senso de tudo aquilo.

“É claro”, dizemos, “é exatamente assim que deveríamos agir. Por que não pensamos nisso antes? Esta é a ajuda pela qual temos ansiado há anos. Até mesmo aquilo que já sabíamos provavelmente também devemos a ela.”

A história verdadeira a seguir pode servir de ilustração.

Havia uma jovem mãe que desejava ingressar na P.N.E.U. para receber ajuda na criação de seus bebês. Uma amiga mais velha, porém, tentou dissuadi-la:

— Minha querida, não seja tola. Todas essas associações são cheias de modismos. Veja a senhora Fulana de Tal. Você conhece alguma família mais bem-educada ou criada com mais bom senso do que a dela? Nunca ouvi dizer que ela pertencesse a alguma dessas novas sociedades educacionais.

— Mas foi justamente ela — respondeu a jovem mãe — quem me falou da P.N.E.U., e ela diz que deve tudo à associação.

De fato, ninguém poderia estar mais livre de “modismos” do que Miss Mason. Ela costumava nos dizer que não deveríamos tentar desenvolver a individualidade, porque era assim que se formavam pessoas excêntricas. Deveríamos, antes, conceder liberdade à “pessoa”, dando-lhe espaço para pensar seus próprios pensamentos.

Assim, grande parte do que era tão novo quando Miss Mason começou a ensinar tornou-se agora parte integrante do conhecimento educacional comum. Sendo assim, provavelmente já não lhe parecia necessário reiterar continuamente aquilo que já havia sido aprendido.

Por isso, algumas pessoas dizem:

— Miss Mason se preocupava mais com o conhecimento do que com o caráter.

Na realidade, porém, ela sustentava que um era impossível sem o outro. Sem conhecimento, não poderia haver caráter. Como o caráter nasce do pensamento, e os pensamentos devem surgir daquilo que conhecemos, o conhecimento forma o caráter.

Isso nos mostra a triste falácia contida no argumento de que não importa o que aprendemos, mas apenas como aprendemos.

Entretanto, quando falava de conhecimento, Miss Mason não queria dizer exatamente a mesma coisa que a pessoa comum entende por essa palavra. Em A Base da Força Nacional, ela nos oferece uma definição extremamente esclarecedora de conhecimento. Afirma que o conhecimento “é um estado do qual as pessoas podem sair e ao qual podem retornar, mas nunca um depósito do qual possam retirar alguma coisa”.

Para ela, o conhecimento estava tão intimamente ligado à vida que ambos eram inseparáveis.

No mesmo folheto, Miss Mason também nos oferece uma definição negativa de conhecimento:

“Ele não é”, afirma, “instrução, informação, erudição nem uma memória bem abastecida.”

Em outro lugar, diz:

“Para muitos de nós, o conhecimento é uma coisa feita de retalhos e fragmentos: conhecimento disto e daquilo, com enormes lacunas entre as partes.”

E novamente:

“Talvez ele seja um belo todo, uma grande unidade que abrange Deus, o homem e o universo, mas possui muitas partes […]; todas são necessárias, e cada uma tem sua função.”

“O conhecimento é a ciência da proporção das coisas.”

E ainda outra citação:

“O conhecimento fundamental é o conhecimento de Deus; enquanto permanecemos ignorantes desse conhecimento principal, a Ciência, a Natureza, a Literatura e a História permanecem mudas.”

Assim, vemos que, para Miss Mason, o conhecimento era algo grandioso — na verdade, não era uma coisa, mas um estado, assim como a amizade é um estado.

É uma condição de amizade feliz com Deus, com o homem e com a natureza, na qual a mente cresce, se expande e floresce tão alegremente quanto uma planta em seu clima nativo. A mente está em contato direto com outras mentes, assim como uma planta está cercada pelo ar; desse modo, ela absorve do divino, dos outros seres humanos e da natureza tudo aquilo de que necessita para sua completa nutrição.

Também é interessante lembrar como Nosso Senhor sempre ensinava aqueles que se aproximavam dele. Ele não os criticava nem procurava falhas, mas iluminava o entendimento deles, oferecendo-lhes um conhecimento mais verdadeiro para orientá-los.

Posso repetir essa definição? Ela mostra com muita clareza como, na filosofia de Miss Mason, o caráter não pode existir sem o conhecimento:

“O conhecimento é um estado do qual as pessoas podem sair e ao qual podem retornar, mas nunca um depósito do qual possam retirar alguma coisa.”

Isso significa que o verdadeiro conhecimento não pode ser utilizado como um criado, uma muleta ou uma vara de salto a ser abandonada depois que passamos no exame final e “chegamos lá”.

Quando tratado dessa maneira, o conhecimento se transforma em mera informação sobre algum assunto específico — ou sobre vários assuntos. E como é enfadonha uma pessoa apenas “bem-informada”, e como são pouco confiáveis suas opiniões sobre as pessoas e sobre a vida!

Esse é um resultado evidente, não porque ela seja especialista nem porque tenha sido aprovada em exames, mas por causa de sua atitude diante do conhecimento: algo adquirido unicamente para ser utilizado.

Na própria Miss Mason encontramos o mais admirável exemplo de seus ensinamentos. A maioria de nós está tão distante do verdadeiro conhecimento que hesita e tateia quando precisa tomar decisões. Mas, como nos conta um artigo publicado na edição de abril da Review, “ela sempre sabia, sem um segundo de hesitação, qual era a coisa certa a fazer”; e, posteriormente, a correção de sua decisão se tornava evidente para os outros.

A concepção de educação de Miss Mason não era apenas a de uma atmosfera e de uma vida, mas também a de uma disciplina.

“Sem trabalho não há proveito”, dizia ela.

Contudo, enfatizar esse aspecto não é propriamente o assunto deste texto, embora nunca deva ser esquecido, pois ninguém acreditava mais firmemente do que ela que o conhecimento pertence apenas àqueles que possuem a vontade de trabalhar seriamente por ele. O conhecimento não pode ser simplesmente dado por outra pessoa.

Talvez eu tenha conseguido mostrar, ainda que vagamente, a extraordinária amplitude do ideal de Miss Mason. Quanto ao equilíbrio, porém, algumas pessoas parecem pensar que a balança de suas preferências pendia mais para o lado das letras do que para o das coisas.

Talvez seja assim. Ela realmente acreditava que o conhecimento de Deus, de nossos semelhantes e da natureza viva era mais vivificante do que o conhecimento das coisas. Mas não excluía a ciência de seu projeto educacional, como algumas pessoas imaginam.

Na verdade, ela afirma:

“Para nossa geração, parece-me que a ciência é o caminho do progresso intelectual.”

Embora também diga:

“Na maior parte das vezes, a ciência, tal como é ensinada, nos deixa frios. Mas a culpa não está na ciência, e sim na maneira como ela é apresentada.”

E ainda:

“As ciências naturais devem ser ensinadas por meio do trabalho de campo ou de outro meio direto. Huxley nos disse há muito tempo que a ciência deveria ser ensinada nas escolas como parte do conhecimento comum.”

Miss Mason considerava os exercícios físicos e os trabalhos manuais extremamente importantes, embora mais como auxiliares da educação do que como parte integrante dela. Ela os chamava de “excelentes treinamentos”.

Quanto à matemática e à música, colocava-as juntas em uma categoria própria: dois ramos do conhecimento, cada qual com uma linguagem própria, uma linguagem, como dizia, “de clareza primorosa”.

No que se refere aos métodos de ensino dessas matérias, Miss Mason não alegava possuir nenhum conhecimento especial. Provavelmente por essa razão algumas pessoas pensam que elas não estavam incluídas em seu ideal educacional.

Mas, quando nos lembramos de que ela sempre sustentava que “conhecimento é verdade”, compreendemos imediatamente que nenhuma parte da verdade pode ser omitida sem destruir o todo.

De alguma maneira extraordinária, as crianças da P.U. School percebem que o conhecimento constitui um todo equilibrado; que as Escrituras, a História, a Geografia, a Botânica e todas as demais matérias são, na realidade, diferentes faces de uma mesma realidade.

Talvez esteja justamente nisso a principal característica de uma escola da P.N.E.U. Isso é apenas outra forma de dizer que as crianças recebem um currículo amplo e alcançam o conhecimento por si mesmas e por amor ao próprio conhecimento.

Tudo isso produz um verdadeiro prazer e amor pelo saber, algo extremamente agradável de testemunhar. Certamente, as crianças da P.N.E.U. não demonstram tédio, não se sentem aliviadas quando os dias escolares terminam nem abandonam o aprendizado ou a leitura quando retornam definitivamente para casa, como costumamos dizer.

Qual é o segredo disso? Não sei.

O que não podemos fazer com o ideal de Miss Mason é reduzi-lo aos seus elementos mais simples. Na mesma medida em que tentamos fazer isso, nós o representamos de maneira equivocada e deixamos de compreendê-lo.

Parte desse segredo encontra-se, sem dúvida, nos Programas de Trabalho. Quanto mais trabalhamos com esses maravilhosos programas, mais percebemos como são bem equilibrados, como satisfazem uma mente faminta e como as matérias se encaixam umas nas outras.

Percebemos também como é difícil ensinar História apenas durante o horário de História, pois ela inevitavelmente “transborda” para a Geografia, a Literatura e até para campos inesperados, como a Aritmética ou a Botânica.

Todos sabemos como o equilíbrio é uma questão delicada. Uma mudança que parece claramente sensata pode, algumas vezes, colocá-lo seriamente em risco.

De alguma forma, até pequenas imperfeições parecem contribuir positivamente para a manutenção do equilíbrio. Certamente, pequenas alterações constantes nos programas são necessárias, pois, sem elas, os programas se tornariam rígidos, inflexíveis e sem vida.

Assim, os programas estão sempre crescendo e mudando. Ao examinarmos um período de vinte anos, é surpreendente perceber como eles se desenvolveram. Talvez o próprio senso de equilíbrio de Miss Mason também tenha crescido durante todo esse tempo.

Isso pode explicar por que, como lemos na edição de abril da Review, Miss Mason não gostava de organizações, formulários impressos, cartas padronizadas, fichários e de toda a parafernália de um negócio sistematizado. Quando o ponto de apoio é rígido, não pode haver equilíbrio.

Ao examinarmos esses antigos programas, é muito interessante observar como algumas matérias desaparecem, reaparecem e depois são novamente substituídas: Arquitetura, por exemplo; Astronomia; Geologia e Fisiografia.

Com um admirável senso de adequação, Miss Mason organizava e reorganizava; escolhia determinado livro, rejeitava outro, experimentava um terceiro e depois o retirava, seja porque não possuía peso suficiente, seja porque aquelas infalíveis crianças se recusavam a “aceitá-lo”.

Isto é, recusavam-se a “narrá-lo”.

A narração, como todos sabemos, possui enorme importância. Não porque constitua a totalidade dos métodos de Miss Mason — pois seu ideal inclui muito mais —, mas porque ocupa um lugar muito maior no trabalho da P.N.E.U. do que alguns professores compreendem.

Além disso, seu uso está se difundindo entre escolas que não pertencem à P.N.E.U., embora, nessas instituições, seu verdadeiro significado como “alimento para a mente” ainda não seja plenamente compreendido.

Nos últimos anos, com sua sabedoria e capacidade de enxergar longe, Miss Mason dava cada vez mais ênfase à narração, pois havia descoberto nela a pedra fundamental da aprendizagem. Quando os livros adequados são utilizados, a narração oferece o alimento sem o qual a mente não pode crescer nem se desenvolver.

Entretanto, não podemos reduzir o método de Miss Mason aos seus menores elementos. Não podemos dizer que o “ensino da P.N.E.U. é a narração”, pois, embora seja impossível realizar o trabalho de Miss Mason sem ela, é perfeitamente possível praticar uma espécie de narração e, ainda assim, permanecer muito distante de seu ideal.

Talvez o ponto central da questão seja o fato de que a narração inclui muito mais do que a simples repetição daquilo que foi lido.

Levamos nossas crianças para um passeio pela natureza. Elas conversam, admiram-se, discutem e pintam pequenos esboços de suas descobertas, sejam fósseis, conchas, insetos ou flores. Escrevem anotações e mantêm listas.

Isso é narração? Certamente.

Elas não leram necessariamente coisa alguma, embora provavelmente estejam agora consultando algum livro para descobrir o nome ou o habitat de um ou outro objeto encontrado. Mas alcançaram o conhecimento diretamente; não existe entre elas e o conhecimento uma parede intermediária de palavras.

Em uma escola que não segue a P.N.E.U., em nove de cada dez casos, cada criança seria obrigada a copiar suas anotações do quadro-negro, no qual a professora teria escrito aquilo que, na realidade, eram as observações dela, habilmente e até amigavelmente impostas às crianças.

Essa é uma das diferenças.

Tomemos a ciência como exemplo.

Uma grande transformação está ocorrendo no ensino da ciência. Antigamente, ensinava-se assim:

“Se você pegar tal coisa, fizer isto e aquilo, acontecerá tal resultado.”

Agora, porém, os métodos estão mudando.

Há pouco tempo, em uma escola para meninos, havia uma agradável sala de Ciências, embora não fosse grandiosa o bastante para ser chamada de “laboratório”. Os meninos estavam aprendendo os hábitos das coisas de maneira semelhante àquela pela qual as crianças da P.U. School aprendem os hábitos de uma ave ou de uma flor: por meio da observação paciente.

Havia livros disponíveis para completar o conhecimento assim adquirido e um professor que conhecia tanto sua matéria quanto seu próprio lugar. De maneira discreta, ele oferecia ajuda e orientação conforme a necessidade.

Os meninos estavam muito ocupados. Alguns realizavam experiências; outros registravam exatamente o que haviam feito e observado; outros ainda faziam desenhos em seus cadernos — “anotações da natureza”, caso prefiram.

Isso não era “narração”? Certamente.

Cumpria o princípio de Miss Mason segundo o qual devemos realizar pessoalmente o trabalho da aprendizagem, o ato de conhecer; e segundo o qual não conhecemos verdadeiramente alguma coisa até que nós mesmos, individualmente, a tenhamos “devolvido”.

Assim, justamente onde menos esperaríamos, encontramos uma transformação que Miss Mason ajudou a produzir. Ela esperava que surgissem mais livros literários sobre ciência, e parece que eles também estão começando a aparecer.

À medida que o tempo passar, provavelmente teremos cada vez mais dificuldade para nos lembrarmos sempre dessa “amplitude e equilíbrio”, que constitui o assunto deste texto.

Quase poderíamos resumir a filosofia de Miss Mason nessas duas palavras: “amplitude e equilíbrio”.

O jornal The Times a chamou de “uma pioneira da educação sensata”.

E, na mesma proporção em que essas duas características são grandes e importantes, encontra-se a dificuldade de colocá-las em prática.

É muito tentador para nós, pessoas comuns, enfatizarmos uma parte em detrimento das demais e, assim, transformarmos uma força em fraqueza.

Existe apenas uma maneira de evitar esse perigo: ler e reler constantemente os livros de Miss Mason e recordar continuamente seus princípios fundamentais. Pois, de agora em diante, a obra de Miss Mason está em nossas mãos, e não podemos deixar de fazer nenhum esforço para preservar a verdade.

Posso tomar como exemplo a narração, essa pedra angular?

Em uma matéria baseada em livros, como História, será que o ensino da P.N.E.U. consiste simplesmente em ler uma determinada passagem uma única vez e depois permitir que certo número de crianças — talvez em uma turma de cinquenta — narre da melhor maneira possível?

Não seria possível que uma lição assim, repetida indefinidamente, resultasse em um sistema rígido?

O que é a narração?

Miss Mason nos diz que ela é:

“A resposta a uma pergunta que a mente faz a si mesma.”

Não poderia haver, portanto, ocasiões em que a narração assumisse a forma de um desenho ou até mesmo de um mapa esquemático?

Não estaríamos correndo o risco de sistematizar o método ao insistirmos que a leitura e a narração são, por si mesmas, sempre suficientes?

Sabemos que nunca podemos omitir aquela parte da lição na qual a criança faz uma pergunta à própria mente e a responde; na qual ela própria realiza o ato definido de conhecer; na qual sua mente é alimentada.

Mas será que nunca deveríamos, por exemplo, propor aos alunos mais velhos perguntas que estimulem a reflexão?

Vejamos o que Miss Mason diz.

Em Educação Escolar, depois de apresentar uma explicação sobre a narração, ela acrescenta:

“Mas essa é apenas uma maneira de utilizar os livros. Outras maneiras consistem em enumerar as afirmações de determinado capítulo; analisar um capítulo; dividi-lo em parágrafos com títulos adequados; organizar e classificar séries; traçar o percurso da causa à consequência e da consequência à causa; discernir o caráter e perceber como o caráter e as circunstâncias interagem […].

A função do professor consiste, entre outras coisas, em propor perguntas e tarefas que ofereçam pleno espaço à atividade mental do aluno […].

Que o próprio aluno escreva meia dúzia de perguntas que abranjam a passagem estudada.

Essas poucas sugestões estão longe de esgotar os usos disciplinares de um bom livro escolar.”

Portanto, é evidente que podemos exigir — pelo menos de nossos alunos mais velhos — algo além da narração.

Entretanto, nunca devemos nos esquecer de que, sem a narração, a mente passará fome. Quaisquer exercícios disciplinares que utilizarmos devem ser acrescentados à narração, e nunca colocados em seu lugar.

Os exercícios físicos da mente são admiráveis, mas não podem substituir o alimento.

Por outro lado, uma mente bem alimentada necessita, em determinados momentos, de certa quantidade de exercício disciplinar, e as crianças perdem alguma coisa quando não o recebem.

Miss Mason era uma idealista. Pessoas sem discernimento talvez chegassem a chamá-la de “mera visionária”.

Todos nós que tentamos seguir seus passos também somos idealistas. No entanto, ouvimos por toda parte que aquilo de que o mundo precisa é de uma educação sólida, prática e útil, e que ele “não tem utilidade” para o idealista.

Contudo, ao olharmos para a História, é inspirador e imensamente reconfortante observar quem são aqueles que exerceram maior influência sobre o mundo.

Não são sempre os idealistas? Os homens que tentaram o impossível?

Que homem prático, dedicado aos negócios, à política, à guerra ou ao comércio pode ser colocado ao lado de Platão, Sócrates ou Dante?

Pois o espírito é mais forte do que a matéria, e nós, que conhecemos ainda que apenas um pouco dos ensinamentos de Miss Mason, sabemos que eles estão fundamentados na verdade eterna.

Na discussão realizada ao final da apresentação, Miss Pennethorne disse que talvez fosse interessante para os membros da conferência saber como o ideal de Miss Mason era visto pelas pessoas dos círculos educacionais comuns da Inglaterra.

Como viajava muito, ela teve a oportunidade de perceber que algumas pessoas consideravam os professores da P.N.E.U. professores de Literatura, enquanto outras os consideravam professores de estudo da natureza.

Muitas pessoas não compreendiam que o ideal de Miss Mason era proporcionar a cada ser humano a oportunidade de se desenvolver em todas as direções.

Quase inconscientemente, as crianças que estudavam na escola percebiam isso.

Por exemplo, ouviu-se uma menina da P.U. School dizer a respeito de seu irmão, que estudava em outra escola:

— Tom pensa que educação é fazer contas e estudar latim. Eu lhe digo que educação é Vidas de Plutarco e apreciação de pinturas!

Muitas perguntas foram feitas.

Uma delas foi:

— O que se deve fazer com uma criança que está na P.U. School há oito meses e ainda não consegue narrar?

Miss Pennethorne respondeu que essa pergunta lhe era feita com frequência.

Ela geralmente descobria que uma criança incapaz de narrar em sala de aula chegava em casa e contava tudo ao irmão ou à irmã.

Com crianças que encontravam dificuldades na narração, era conveniente praticar utilizando alguma coisa fácil de reproduzir, como, por exemplo, os poemas narrativos de Longfellow.

Muitas vezes, crianças que ficavam sem palavras ao falar escreviam bem. Nesse caso, poderiam ser orientadas a escrever a narração e, depois, ler aquilo que haviam escrito. Com o tempo, seriam capazes de narrar sem precisar escrever antes.

Algumas vezes, crianças que demoravam a narrar diante da turma poderiam ser orientadas a narrar umas para as outras, como se faz no sistema de grupos das escolas maiores.

Outra pergunta foi:

— Quando uma lição não consiste apenas em leitura e narração, a explicação do professor deve vir antes ou depois?

Miss Wix respondeu que, em sua opinião, a explicação deveria vir por último.

O coronel Ward agradeceu a Miss Wix por sua apresentação extremamente interessante e disse acreditar que ela havia mostrado como um ideal pode ser aplicado de maneira prática.

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