Charlotte Mason (1842–1923) foi, de fato, anglicana, mas não tinha qualquer postura hostil à Igreja Católica. Por um lado, ela veio de família cristã mista: sua mãe era católica e seu pai quaker, embora Mason tenha se tornado uma anglicana praticante e fervorosa. Esse contexto familiar mostra que ela cresceu em contato com o catolicismo, o que torna improvável qualquer preconceito profundo. De fato, como observam historiadores do método Mason, “Embora Charlotte não fosse católica, ela reconhecia a criança como pessoa feita à imagem de Deus. Ela promovia a educação do ser humano como um todo” (homeschoolconnections.com). Isso indica que seu foco era promover valores cristãos universais (como o respeito pela dignidade da pessoa humana) e não em atacar outras tradições cristãs.
Visão cristã comum
Mason entendia a educação dentro de uma ampla visão cristã compartilhada por católicos e protestantes. Ela enfatizava passagens bíblicas e hábitos piedosos, mas também acreditava que certos instrumentos devocionais têm valor para todos os cristãos. Por exemplo, ela recomendava o uso das coletâneas dominicais da Igreja Anglicana (Coletâneas, Epístolas e Evangelhos) como guia de oração semanal. Como ela mesma disse, “mesmo aqueles que não pertencem à Igreja da Inglaterra acharão úteis as suas Coletâneas, Epístolas e Evangelhos dominicais, por darem aos jovens algo definido para pensar, semana a semana” (charlottemasonpoetry.org). Essa frase deixa claro que Mason considerava essas leituras benéficas “mesmo” para não-anglicanos, portanto para católicos também, como forma de alimentar a vida espiritual da criança em casa. Ela via a tradição litúrgica comum (como o calendário cristão) como algo que une todas as igrejas cristãs, não como ponto de divisão.
Princípios católicos compatíveis na educação
A filosofia educativa de Charlotte Mason está assentada em princípios cristãos que transcendem divisões. Por exemplo, ela afirmou que a «educação» inclui ensinar o que evitar e como evitar o mal – conhecimento fundamental tanto para o cidadão da “Cidade de Deus” quanto para o cidadão de sua cidade terrena. Em outras palavras, Mason dizia que saber distinguir o bem e o mal é tão essencial numa formação moral quanto saber fazer o bem. O termo “Cidade de Deus” é justamente um conceito augustiniano da fé católica, usado por Mason para reforçar que a educação visa preparar a criança para suas responsabilidades tanto terrenas quanto espirituais. Além disso, ela via o papel da Igreja Católica de forma positiva ao falar que nossa história está “pontilhada por homens que ascenderam” e que “a Igreja Romana se fundou amplamente sobre esse princípio” da igualdade de oportunidades na educação. Com isso ela reconhecia que a tradição católica valorizava dar educação e oportunidade de melhoria a todos, reforçando o ideal cristão comum de justiça e caridade.
Ênfase no caráter e virtudes cristãs
Mais importante do que rótulos, Charlotte Mason enfatizava a formação do caráter cristão por meio das virtudes e de leituras edificantes. Em sua visão, a criança deve ter contato com “grandes ideias e grandes virtudes” através dos livros que lê. Como ela mesma escreveu, “uma educação inicial a partir de grandes livros, com grandes ideias e grandes virtudes, é a verdadeira fundação do conhecimento – o conhecimento que vale a pena ter”. Percebe-se aqui que ela considerava a leitura de obras de literatura de qualidade (incluindo biografias de santos, parábolas bíblicas, histórias da antiguidade etc.) fundamental para cultivar virtudes como fé, honestidade, coragem e auto-obediência. Em suas sugestões curriculares sobre apreciação artística e musical, Mason não viu problema em utilizar belas obras criadas por católicos, algo que infelizmente recebe hostilidade de muitos protestantes atuais. Enfim, seu ponto era que toda verdade cristã – seja de origem católica, protestante ou evangélica – deve ser ensinada para formar a consciência da criança.
Em suma, Charlotte Mason não tinha um viés anticatólico; pelo contrário, sua pedagogia se sustenta em valores cristãos básicos compartilhados por católicos e protestantes. Seus escritos recomendam hábitos devocionais, o estudo das Escrituras e a formação das virtudes, sem atacar outras tradições. Como resumem estudiosos católicos do Charlotte Mason, é fácil adaptar seu método para uma educação católica porque ele parte do princípio cristão de que a criança é criada à imagem de Deus e deve ser educada para servir a Cristo em todos os aspectos da vida. Dessa forma, pais católicos podem usar os princípios de Mason (ambiente piedoso, leitura de bons livros, formação do caráter e da consciência) sabendo que ela honrava a fé cristã em geral e não nutria hostilidade à Igreja Católica.


