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Por que algumas escolas aboliram a lição de casa no ensino infantil e fundamental?

Muitas escolas contemporâneas, tanto públicas quanto privadas, têm optado por não atribuir lição de casa para crianças da educação infantil e das séries iniciais do ensino fundamental. Essa decisão se apoia em diversos argumentos pedagógicos, psicológicos, práticos e culturais. Abaixo, exploramos cada conjunto de razões, citando exemplos de países, metodologias educacionais e estudos que embasam essa escolha.

Razões pedagógicas

Pesquisas indicam que tarefas escolares tradicionais trazem pouco ou nenhum benefício acadêmico para crianças pequenas. Meta-análises apontam que não há correlação significativa entre lição de casa e desempenho de alunos do ensino fundamental, e em alguns levantamentos de longo prazo o impacto da lição no aprendizado foi praticamente nulo. O educador Alfie Kohn, autor de The Homework Myth, ressalta que nenhuma pesquisa demonstra vantagens acadêmicas em obrigar crianças a estudar em casa após a escola, chamando essa prática de um “segundo turno” desnecessário. Pelo contrário, tarefas extensas fora do horário escolar podem minar o prazer de aprender, ao reforçar atividades repetitivas e pouco significativas.

Especialistas defendem que, nos primeiros anos, o aprendizado deve ocorrer de forma lúdica e contextualizada. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Brasil, por exemplo, enfatiza que a brincadeira e a interação são eixos fundamentais na educação infantil. Cobrar deveres formais nessa fase pode ser visto como inadequado ao desenvolvimento: crianças de 5 ou 6 anos aprendem melhor por meio do brincar e de experiências concretas, e não de tarefas acadêmicas antecipadas. Escolas integrais e com pedagogias ativas argumentam que todo conteúdo essencial pode ser abordado durante as aulas regulares. Se a escola adota métodos eficazes de ensino e dá tempo para práticas em classe, não há necessidade de prolongar as atividades para casa. Nesse sentido, muitas escolas buscam oferecer na própria rotina escolar momentos de estudos dirigidos, leituras e pesquisas, integrando essas práticas ao dia a dia do aluno de forma mais atraente que a lição tradicional.

Além disso, a lição de casa convencional costuma focar em repetição mecânica e memorização, o que diversos educadores criticam. A pesquisadora Martha Nogueira chama o dever de casa tradicional de “atividade de repetição mecânica” que muitas vezes apenas sobrecarrega alunos sem realmente enriquecer seu aprendizado. Em vez disso, defende-se uma aprendizagem significativa e prazerosa: se a criança não vê propósito ou estímulo na tarefa, seu engajamento cai e a atividade vira sofrimento, prejudicando a motivação pelo estudo. Por essas razões pedagógicas, cresce a corrente de educadores que propõe abolir ou repensar a lição de casa nos anos iniciais, substituindo-a por estratégias mais eficazes de consolidar conhecimentos (como projetos, leituras orientadas ou atividades em sala) sem invadir o tempo livre da criança.

Razões psicológicas

Do ponto de vista emocional e cognitivo, a ausência de lição de casa nessa faixa etária pode trazer benefícios importantes. Crianças pequenas precisam de tempo livre para descansar, brincar e conviver com a família, atividades essenciais para o desenvolvimento saudável. Quando sobrecarregadas de deveres, elas podem apresentar estresse, frustração e cansaço excessivo, sentimentos que prejudicam o bem-estar e a relação com a escola. Estudos fisiológicos mostram, por exemplo, que reduzir ou eliminar momentos de recreação eleva marcadores de estresse: em uma pesquisa com alunos de 9-10 anos, encurtar o recreio fez os níveis de cortisol (hormônio do estresse) triplicarem. Isso sugere que tempo para brincar e relaxar pode ser mais benéfico à autorregulação emocional e às habilidades cognitivas iniciais do que planilhas ou tarefas noturnas.

Outra preocupação psicológica é não comprometer a motivação intrínseca e o prazer de aprender. Crianças naturalmente têm curiosidade, mas tarefas impostas podem, se mal dosadas, transformar o aprendizado em obrigação desgastante. Pais e professores relatam que lições volumosas levam muitas vezes a conflitos familiares e ansiedade nas crianças, que se sentem pressionadas a corresponder às exigências. Em termos de comportamento, isso pode resultar em aversão às atividades escolares – alguns alunos passam a ver a escola de forma negativa devido à associação com cobranças contínuas em casa. Menos lição de casa significa menos brigas na hora do estudo e menos tensões no lar, contribuindo para um clima familiar mais positivo e para crianças mais descansadas e receptivas no dia seguinte.

Vale lembrar que o tempo fora da escola também é tempo de aprendizado, porém de outras naturezas: social, criativa, emocional. Brincar livremente, participar de conversas familiares, ajudar em pequenas tarefas do lar ou simplesmente ter ócio são experiências que estimulam imaginação, autonomia e equilíbrio emocional. Muitos educadores argumentam que, ao garantir que a criança tenha essas vivências extraclasse, estamos apoiando um desenvolvimento mais completo, ao invés de sobrecarregá-la com obrigações formais precoces. Assim, a opção de não dar deveres visa também preservar a saúde mental e a infância do aluno, evitando estresse precoce e cultivando uma atitude mais positiva em relação ao aprender.

Razões práticas e sociais

Diversos motivos pragmáticos levam escolas a reduzirem ou eliminarem lições de casa nos anos iniciais. Um dos principais é a realidade das famílias modernas: hoje, frequentemente ambos os pais trabalham fora e dispõem de pouco tempo para acompanhar tarefas escolares. A velha suposição de que haveria um adulto disponível em casa para ajudar com o dever nem sempre se sustenta. Com a lição de casa, a escola acaba transferindo aos pais a responsabilidade de ensinar ou reforçar conteúdos, o que pode gerar tensões e frustração em lares onde falta tempo, preparo pedagógico ou mesmo paciência após longas jornadas de trabalho. Há também impactos na dinâmica familiar: noites que poderiam ser de convivência ou descanso transformam-se em sessões de estudo forçado, muitas vezes marcadas por atritos (“hora do dever” vira sinônimo de estresse para pais e filhos).

A questão da sobrecarga de tempo é especialmente citada em escolas de educação integral (período integral). Nesses contextos, a criança já permanece cerca de 7 a 8 horas diárias na escola; exigir mais atividades em casa seria prolongar excessivamente a jornada infantil. Escolas integrais pioneiras no Brasil, como a Lumiar (SP/SC), argumentam que a carga horária estendida permite realizar todas as atividades curriculares dentro da escola, incluindo exercícios de fixação e pesquisas, com acompanhamento dos educadores. Assim, o aluno consolida o aprendizado no próprio ambiente escolar – muitas vezes de forma mais eficaz e colaborativa – e ao chegar em casa está livre para outras experiências. “Isso nos ajuda a não sobrecarregar o aluno, preservar o convívio com a família e dar tempo para ele se dedicar a outras atividades de interesse após a escola”, explica Graziela Lopes, diretora da Lumiar. Em outras palavras, o tempo pós-aula pode ser melhor aproveitado com esporte, lazer, leitura por prazer ou descanso, sem prejuízo acadêmico.

Outra razão prática crucial é a desigualdade socioeconômica. O dever de casa tende a escancarar as diferenças entre alunos que têm apoio e recursos em casa e aqueles que não têm. Famílias de classe média/alta podem ajudar nos deveres, contratar reforço ou fornecer computador e internet; já crianças de meio mais vulnerável muitas vezes enfrentam tarefas sozinhas, em casas sem espaço de estudo, ou precisam elas mesmas assumir responsabilidades (cuidar de irmãos menores, por exemplo). Estimativas nos EUA mostram milhões de jovens sem ninguém disponível para auxiliar, seja porque todos os adultos da família trabalham à noite, seja por falta de conhecimento dos conteúdos. Na França, um dos argumentos para proibir oficialmente os deveres no primário (medida existente desde 1956) foi justamente que os trabalhos extra-classe amplificam desigualdades – quem tem família presente leva vantagem sobre quem não tem. Assim, abolir a lição de casa é visto como uma forma de promover equidade: garantir que o aprendizado aconteça na escola, igualmente para todos, sem depender do capital cultural ou do tempo dos pais. Essa medida evita que a falta de acompanhamento em casa se torne uma penalidade acadêmica para os alunos menos favorecidos.

Razões culturais e metodológicas

Culturalmente, observa-se uma tendência em vários países de repensar o valor da lição de casa para crianças pequenas. Sistemas educacionais de alto desempenho, como o da Finlândia, tradicionalmente dão pouquíssima ou nenhuma tarefa para casa no ensino básico. Na Finlândia, acredita-se que os professores devem cobrir o essencial durante as aulas e que o tempo fora da escola é reservado à família e à vida cotidiana – “lições extras são consideradas desnecessárias por todos os envolvidos”, já que há confiança de que a escola cumpriu seu papel no horário regular. Esse equilíbrio é parte da filosofia finlandesa de valorizar a infância: crianças finlandesas têm mais tempo livre, intervalos frequentes durante as aulas e recebem tarefas mínimas, e ainda assim o país figura entre os melhores em desempenho acadêmico global. O sucesso finlandês sugere que não é preciso sobrecarregar alunos de deveres para alcançar bons resultados, inspirando educadores de outros locais a seguirem caminho similar.

Na França, como mencionado, desde o pós-guerra há restrições formais à lição de casa nas séries primárias. Em 2012, o governo francês voltou a discutir o tema quando o presidente François Hollande propôs eliminar de vez os deveres, argumentando que eles eram injustos com alunos sem apoio familiar. Embora a proibição total não tenha avançado na época, a França implementou programas de acompanhamento escolar extra, oferecidos nas próprias escolas, para que os alunos pudessem fazer eventuais tarefas com orientação de monitores – diminuindo a necessidade de fazê-las em casa. Já em países asiáticos, conhecidos pelo rigor acadêmico, também surgem mudanças culturais: a China aprovou em 2021 a política “Dupla Redução”, visando reduzir substancialmente a quantidade de dever de casa e aulas de reforço privadas no ensino obrigatório, como forma de proteger a saúde física e mental dos estudantes e aliviar pressões familiares. Essa política chinesa reconheceu que cargas excessivas de estudo vinham causando falta de sono, ansiedade e outros problemas em crianças e adolescentes, levando o governo a intervir para limitar os deveres sobretudo nas séries iniciais.

No âmbito das metodologias educacionais específicas, várias abordagens pedagógicas contemporâneas também desestimulam o dever de casa tradicional. As escolas Montessori, por exemplo, normalmente não atribuem lições de casa formais, especialmente na educação infantil e primeiras séries. Isso porque a filosofia Montessori preza pelo aprendizado auto-dirigido e concreto: espera-se que a criança explore e pratique espontaneamente, inclusive em casa, através de atividades da vida real (ler por prazer, ajudar em algo prático, observar a natureza), em vez de exercícios fixos determinados pelo professor. De modo semelhante, a pedagogia Waldorf/Steiner, assim como no método Charlotte Mason acredita em introduzir conteúdos de maneira gradual e apropriada à faixa etária. Não se aplica lição de casa nos anos iniciais Waldorf – em algumas escolas dessa linha, os estudantes só começam a ter deveres a partir do 3º ou 4º ano do fundamental, e mesmo assim de forma moderada, Até essa idade, privilegiam-se atividades escolares artísticas, rítmicas e práticas, com muita aprendizagem ao ar livre e três recreios por dia, reforçando que “educação não é uma corrida” e que pesquisas de desenvolvimento infantil respaldam essa ausência de tarefas formais precoceses.

Experiências concretas de escolas que adotam a política do “sem dever de casa” existem em diversos lugares. Nos Estados Unidos, além de inúmeras escolas elementares públicas que vêm experimentando abolir o homework, distritos inteiros em estados como Califórnia, Virginia e Nevada instituíram limites ou eliminaram tarefas para alunos mais jovens. Essas redes justificam a medida pela preocupação com estudantes que têm dupla jornada (crianças que após a aula ainda trabalham ou cuidam de familiares) e pela constatação de que o stress acadêmico estava alto entre os pequenos. No Reino Unido, ocasionalmente surgem escolas anunciando políticas similares, gerando debate na comunidade escolar sobre tradição versus inovação. Na Espanha, a partir de pressão de associações de pais, vem ocorrendo uma “greve de deveres” e discussão nacional em torno de reduzir tarefas, especialmente nos fins de semana, para garantir tempo de qualidade às crianças, Mesmo no Brasil, onde a lição de casa é culturalmente arraigada, algumas escolas privadas inovadoras (como as já citadas Lumiar e Espaço Ekoa, em SP) e escolas públicas de tempo integral começam a trilhar esse caminho, buscando alinhamento com práticas internacionais que valorizam uma infância menos sobrecarregada.

Em suma, os principais motivos alegados para não dar lição de casa na educação infantil e anos iniciais incluem: (1) Pedagógicos – falta de eficácia comprovada no aprendizado e maior benefício de métodos lúdicos; (2) Psicológicos – redução do estresse infantil, preservação da motivação e do bem-estar; (3) Práticos/Sociais – respeito ao tempo da criança e da família, diminuição de desigualdades e conflitos domésticos; (4) Culturais/Metodológicos – visões educacionais que priorizam o desenvolvimento integral, com exemplos bem-sucedidos ao redor do mundo mostrando que é possível ter excelência acadêmica com pouca ou nenhuma lição de casa inicial. Cada escola ou rede que adota essa política o faz pesando esses fatores e, geralmente, amparada por estudos e experiências que sustentam a decisão de que, para crianças pequenas, aprender na escola e viver a infância fora dela é a melhor lição de todas.