- Instituto Charlotte Mason - https://institutocharlottemason.com.br -

Por que a educação baseada em evidências é ignorada no Brasil?

O fracasso dos alunos brasileiros em avaliações internacionais tornou-se tragicamente corriqueiro, mas isso não se traduz em políticas de ensino mais eficientes. Pelo contrário, a “ciência da educação” é frequentemente deixada de lado em favor de soluções simplórias ou modismos passageiros. A adoção de práticas educacionais comprovadamente eficazes esbarra em um amálgama de obstáculos: do resquício de uma escola autoritária e tecnocrática à preferência cultural por novidades pedagógicas de efeito imediato, passando pela instabilidade política, viés ideológico, baixa prioridade orçamentária e entraves burocráticos. Em outras palavras, ainda que sejamos parceiros internacionais nas discussões sobre educação, o Brasil tem dificuldade de transformar leis e ideias em ação sustentada. Especialistas advertem que “é necessário tomar decisões com base em informações válidas, para fugir de ideologias, pressões políticas, ‘achismos’ e modismos” (alfaebeto.org.br). No entanto, desde a sala de aula até o Palácio do Planalto, as evidências científicas ainda são quase tabu.

Legado histórico autoritário e tecnocrático

A história educacional brasileira traz marcas profundas que ajudam a entender essa resistência. Durante a ditadura militar (1964-1985), a educação foi moldada por uma visão tecnocrática e autoritária, voltada prioritariamente à “segurança e desenvolvimento nacional”. Reformas de base e leis educacionais daquele período reforçaram uma escola rígida e hierárquica. Para a ditadura, a escola pública tornara-se um instrumento de “regeneração moral” da sociedade – um regime de ensino que mais formava “soldados” do que pensadores críticos. Esse legado reacionário dificultou a cultura de questionamento científico: a tradição autoritária impregnou currículos e métodos, e a adoção de novas técnicas baseadas em pesquisas ficou emperrada por desconfiança ou acomodação.

Mesmo depois do fim da ditadura, parte da burocracia educacional manteve vícios do passado. Muitos sistemas de ensino continuaram enfatizando preparação técnica superficial do professor e práticas de ensino centralizadas, sem incorporação efetiva de evidências sobre o que funciona em sala de aula. Em resumo, as raízes históricas do ensino tecnicista criaram um ambiente pouco favorável à inovação fundamentada em estudos acadêmicos.

Cultura de modismos pedagógicos e aversão à mudança

Mais do que memória, a cultura vigente no meio educacional valoriza o familiar e o impactante. Assim, teorias atraentes – mas nem sempre eficazes – recebem apoio enquanto métodos validados por pesquisas são ignorados. Como alertam analistas, governos e escolas muitas vezes “insistem em modismos pedagógicos” em vez de focar na relação comprovada entre educação e redução das desigualdades (portaliede.org.br). Em outras palavras, preferimos a promessa de grandes saltos por atalhos inovadores (muitas vezes baseados em visões ideológicas ou sonhos de renovação pedagógica) do que investir em técnicas já testadas.

Essa “cultura do improviso” é combustível para pseudossoluções. Exemplos incluem a adoção acrítica de abordagens como aprendizagem baseada em projetos sem evidências claras de ganho de aprendizagem, ou o apego a equipamentos digitais caros sem formação adequada. Um estudo do Instituto Todos Pela Educação revelou que “apenas 20% dos professores brasileiros consideram que os recursos e materiais pedagógicos a eles oferecidos são totalmente adequados” (todospelaeducacao.org.br) – o que expõe uma falta de suporte real ao corpo docente. Enquanto isso, pesquisas internacionais comprovam que práticas simples como revisão espaçada, feedback imediato e aprendizagem ativa aumentam significativamente a retenção do conteúdo (eduvem.comeduvem.com). Contudo, aqui prevalece a velha máxima: “vamos testar essa novidade aqui antes de compromissos sérios”.

Instabilidade política e viés ideológico

A instabilidade no comando do Ministério da Educação é outro fator crítico. Desde 1979, os ministros duraram em média apenas dois anos (agenciabrasil.ebc.com.br), em grande parte devido a crises políticas e econômicas. Esses “tempos conturbados” resultam em falta de continuidade: é raro concluir uma política e avaliar seus efeitos. Além disso, a educação virou terreno de brigas ideológicas. Desde cortes curriculares por motivações políticas até o debate inflamado sobre gênero e valores, a discussão científica perde espaço para a agenda partidária.

Recentemente, ilustra essa tendência a retirada do termo “evidências científicas” de um decreto federal de recuperação de aprendizados pós-pandemia, que passou a privilegiar princípios amplos (como equidade e diversidade) sem indicação de métodos comprovados (gazetadopovo.com.brgazetadopovo.com.br). Como lembrou Anamaria Camargo (Instituto Livre Pra Escolher), “são justamente as evidências científicas que garantem a eficácia de uma abordagem pedagógica. Investir sem o cuidado de saber o que se está adotando é, no mínimo, irresponsabilidade”. Para ela, substituir critérios técnicos por critérios identitários abre espaço a um ensino “woke”, “absolutamente anticientífico”. Em outras palavras, decisões educacionais hoje mudam conforme a ideologia do momento ou o governante da vez, em vez de seguirem o que a pesquisa indica.

Restrição orçamentária e prioridades econômicas

É também um dilema econômico. O Brasil mal consegue recuperar seu ritmo de investimentos em educação. No atual ciclo do Plano Nacional de Educação (2015-2024) vimos o gasto público se estagnar em torno de 5% do PIB – muito abaixo do patamar de países desenvolvidos e distante da meta oficial de 10% do PIB. Na prática, isso significa pouca margem para novos programas. Dados da Campanha Nacional pelo Direito à Educação mostram que os 5% do PIB atuais significam só cerca de US$ 3.668 anuais por aluno, um terço da média da OCDE. Ainda assim, nem tudo vai para a sala de aula: parte desse orçamento é absorvido pela folha de pagamento, Previdência dos professores e manutenção das burocracias educacionais.

Sem um incremento real no investimento – que considere a “reparação histórica” necessária para alcançar níveis comparáveis aos países ricos – faltam recursos para aplicar programas baseados em evidência. Mesmo quando há verbas, elas podem ser desviadas por ineficiência burocrática ou escolhas políticas. Portanto, a escassez de orçamento e as prioridades orçamentárias (frequentemente destinadas a gastos obrigatórios e não a inovação) configuram mais um obstáculo à adoção de práticas comprovadas.

Barreiras institucionais: da burocracia à formação docente

Finalmente, há obstáculos dentro das próprias escolas e secretarias. A burocracia pesada do setor público engessa mudanças. Como observam especialistas, “o grande impasse que impede o avanço no setor público pode ser observado pela natureza burocrática e conservadora das políticas públicas da educação brasileira” (nucleodoconhecimento.com.br). Pilhas de formulários, lentos processos de aprovação de projetos e falta de autonomia local impedem que inovadores (como técnicas validadas por estudos) cheguem às salas de aula. Reduzir essa burocracia – combatida em diversas literaturas como entrave à flexibilidade – seria essencial para dar agilidade à adoção de práticas eficazes.

Outro gargalo grave é a formação do professor. Pesquisa recente mostra que 1 em cada 3 professores da rede pública não possui formação adequada para a disciplina que ensina. Nos anos finais do fundamental, essa taxa sobe: apenas 59% dos docentes são especializados na área que lecionam. Ou seja, muitas vezes quem ensina matemática, português ou ciências não teve capacitação específica na graduação. Isso compromete a qualidade do ensino básico e dificulta a implementação de métodos mais avançados – afinal, como executar práticas baseadas em evidências se nem se domina o conteúdo?

Além disso, constatou-se que a formação continuada também é deficiente. Uma pesquisa com professores revelou que, embora reconheçam a importância da educação baseada em evidências, muitos simplesmente desconhecem suas técnicas por ela não ser tema de seus cursos de licenciatura. As barreiras relatadas foram “a ausência desse conteúdo na graduação, a dificuldade para encontrar fontes confiáveis de informação e para aplicar a teoria na prática”. Ou seja, os próprios docentes precisam de formação específica e de acesso a pesquisas confiáveis para usar no dia a dia. Nesse sentido, as Diretrizes Nacionais de Formação de Professores ainda produzem pouco efeito real; falta um currículo de formação docente que reflita as demandas contemporâneas.

Aprendizado internacional e caminhos possíveis

Enquanto isso, sistemas educacionais de ponta mostram o caminho inverso: países como Finlândia e Singapura alcançam consistentemente o topo das avaliações mundiais justamente por basearem suas práticas em evidências. Na Finlândia, por exemplo, o professor é bem formado e estimulado a usar metodologias testadas, como ensino ativo e avaliação formativa. Em Singapura, o currículo nacional é rígido, porém embasado em estudos sobre aprendizagem, refletindo-se em altíssimo desempenho nos rankings internacionais. Mesmo em países de língua inglesa, há iniciativas de “what works” – guias e centros que sintetizam pesquisas para orientar as escolas.

As experiências no exterior mostram que o esforço vale a pena: adotando estratégias comprovadas (revisão espaçada, feedback imediato, exercícios intercalados etc.), muitos sistemas já registram ganhos reais de aprendizagem. Essas práticas também aumentam o engajamento dos alunos, como mostram estudos de neurociência educacional. Portanto, há exemplos claros de que investir em evidências não é um luxo: é estratégia inteligente para impulsionar a qualidade.

Diante dos problemas listados, caminhos possíveis começam a despontar. É urgente fortalecer a formação dos professores – inicial e continuada – com ênfase em práticas validadas por pesquisas. Escolas e secretarias poderiam criar centros de apoio ao professor baseados em dados (como fazem alguns distritos no exterior), ofertando materiais pedagógicos eficientes e treinamentos regulares. É preciso também fomentar a cultura de avaliação: mensurar de forma consistente o que funciona em sala de aula (como em Sobral/CE, que avançou com currículo estruturado) e ajustar políticas públicas à luz desses resultados. Além disso, cortar a burocracia excessiva – reduzindo a papelada e dando mais autonomia às escolas – facilitaria a inovação. No plano político, urge resgatar compromissos do PNE (como a meta dos 10% do PIB) e blindar o debate educacional das disputas ideológicas: decisões curriculares e pedagógicas devem seguir o interesse dos alunos, não de partidos.

Em suma, a educação baseada em evidências só avançará se rompermos o círculo vicioso que enfrenta fatores históricos, culturais, políticos, econômicos e institucionais em simultâneo. Como conclui a pesquisa citada, é necessário “um esforço conjunto para maior difusão da EBE e para que essa abordagem faça parte da formação inicial e continuada de professores”. Não se trata de modismo: trata-se de profissionalizar o ensino com o que já sabemos que funciona. Países de alta performance educacional provam que vale a pena. Sem isso, continuaremos apenas repetindo o passado, deixando milhares de crianças e jovens à deriva.